Uma reflexão sobre pertencimento, burnout e identidade a partir da análise do psicanalista Ricardo Lucas
Por Súsian Lima
Fundadora da Gnose Moda Consciente
Quando “O Diabo Veste Prada” foi lançado, muita gente enxergou o filme apenas como uma história sobre moda, glamour e ambição profissional.
Mas talvez, olhando hoje, ele revele algo muito mais profundo.
Recentemente, revisitei essa narrativa a partir da reflexão do psicanalista Ricardo Lucas, que propõe um olhar sobre pertencimento, exaustão emocional e identidade dentro da lógica contemporânea de performance.
E talvez seja exatamente por isso que o filme continue tão atual.
Porque, no fundo, ele nunca foi apenas sobre roupa.
Andy entra naquele universo acreditando que está apenas se adaptando a uma nova oportunidade profissional. Aos poucos, porém, sua transformação deixa de ser apenas estética.
Ela muda o ritmo.
Muda os vínculos.
Muda os limites.
Muda a forma de enxergar a si mesma.
E quase sem perceber, começa a se distanciar da própria essência.
O mais interessante é que isso acontece de forma silenciosa — como acontece com tantas pessoas hoje.
Vivemos em uma cultura que exige performance constante:
ser produtivo,
ser desejável,
ser relevante,
ser admirado,
ser suficiente.
E muitas vezes confundimos pertencimento com aprovação.
A famosa cena do “azul cerúleo” talvez seja uma das maiores provas de que moda nunca foi apenas superficial. A roupa comunica estruturas sociais, comportamento, identidade e desejo de aceitação.
O que vestimos também fala sobre os lugares aos quais queremos pertencer.
Mas existe uma linha delicada entre expressão e apagamento.
Entre escolher quem somos e nos moldarmos completamente para sermos aceitos.
Talvez seja por isso que tantas pessoas estejam emocionalmente exaustas.
Porque sustentar uma imagem o tempo inteiro cansa.
Performar o sucesso o tempo inteiro cansa.
Tentar caber o tempo inteiro cansa.
E isso vai muito além da moda.
Está nas redes sociais.
No empreendedorismo.
Nos ambientes profissionais.
Nas relações.
Na necessidade permanente de validação.
Depois de assistir ao filme, uma percepção ficou ainda mais forte para mim: a transformação da personagem não acontece quando ela muda a forma de se vestir. Ela acontece quando ela começa a medir o próprio valor a partir do olhar daquele ambiente. Talvez seja aí que mora a reflexão mais atual do filme. Em que momento crescer significa evoluir e em que momento significa apenas se adaptar para ser aceito?
Recentemente, em uma troca sobre essa reflexão, Ricardo Lucas trouxe um ponto que aprofundou ainda mais esse olhar: acolhimento, pertencimento e sustentação formam um tripé essencial para a saúde mental.
E talvez um dos grandes colapsos do mundo contemporâneo seja justamente a ausência dessas três bases.
Existe muita exposição.
Muita cobrança.
Muita performance.
Mas pouco acolhimento verdadeiro.
A moda consciente, nesse contexto, também pode ser entendida como um convite ao retorno.
À presença.
À autenticidade.
Ao essencial.
Não apenas ao consumo mais responsável, mas à construção de uma relação mais honesta consigo mesmo.
Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo não esteja em pertencer a tudo.
Talvez esteja em conseguir permanecer inteiro.
Porque sustentar a própria essência em um mundo que exige performance constante talvez seja um dos maiores atos de coragem contemporâneos.
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Reflexão inspirada na análise do psicanalista Ricardo Lucas:
https://www.tumblr.com/ricardolucas-psi/817146268809838593/o-diabo-veste-prada-pertencimento-burnout-e-a?source=share
